terça-feira, 26 de abril de 2016

Deontologia Liberal do Jornalismo e das Comunicações

A ilusão deontológica
Getúlio não perdeu tempo. Lula e o PT perderam 13 preciosos anos iludidos com o discurso ideológico da deontologia liberal do Jornalismo e das Comunicações
Marcos Dantas*

Nenhum órgão de imprensa mostrou-se minimamente escandalizado diante do fato, em si absurdo, de um juiz de 1ª instância ter gravado conversas da Presidência da República e, ainda por cima, ter vazado o áudio dessas gravações para os meios de comunicação. Sem quase nenhuma diferença nas formas de expressão, empenharam-se em destacar o que haveria de supostamente escandaloso no conteúdo das conversas entre a presidente e o ex-presidente Lula da Silva. No máximo, deixaram para as vozes críticas previsíveis, nos meios políticos ou jurídicos, as reações negativas ao comportamento do juiz, em matérias publicadas nos espaços secundários de suas páginas, no caso da imprensa escrita, ou muito escassamente divulgadas, no caso do noticiário televisivo.
O ato do juiz Sergio Moro, cujo comportamento já começa a assumir os ares destemperados do juiz nazista Roland Freisler (https://pt.wikipedia.org/wiki/Roland_Freisler), passou-se assim como se fosse algo tão natural quanto o morro do Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro. Essa naturalidade é naturalmente absorvida pelo senso comum da sociedade que, no geral, excluídos os seus estratos mais intelectualizados ou aqueles já propensos à desconfiança e à crítica, não costuma a questionar o que lhe chega dos meios de comunicação. Ao contrário: a realidade que lhe é mostrada, na forma como lhe é mostrada, esta é a realidade a ser vivida no seu cotidiano banal.
Senso comum é a noção de mundo usual dos indivíduos com base na qual, como um pano de fundo, lhes demarca as suas atividades profissionais e lúdicas no mundo real em que vivem: o mundo assim como ele é e, sendo assim como ele é, proporciona as condições, ruins para muitos, razoáveis ou mesmo ótimas para alguns, de ajuste e vivência no nosso dia a dia. Dada essa percepção ordinária de mundo, o importante para cada indivíduo será garantir aquilo que "necessita" para "levar a vida", tanto em termos materiais quanto psicológicos, nas condições efetivas em que se vive. No mais, o mundo é esse mesmo…
A função dos meios de comunicação é a de reproduzir e reforçar o senso comum (com perdão para esta inicial abordagem funcionalista). Jornais e revistas de maior tiragem, programas de televisão de maior audiência alcançam o sucesso que alcançam porque estão em consonância cognitiva ou subjetiva com o senso comum geral da sociedade, não o agridem, não o questionam. Ao contrário, tranquilizam. Aqueles outros meios que põem em questão o senso comum, que convidam seu leitor ao questionamento, à inquietude, logo, a partir daí, a tomar atitudes, esses terão sempre audiência relativamente mais restrita, embora possam também ganhar público naqueles segmentos socioculturais propensos à visão crítica.
Numa sociedade capitalista, os meios necessitam de audiência (ou tiragem), audiência essa que vendem aos anunciantes, destes extraindo faturamento e lucro. A audiência é, por assim dizer, a “mercadoria” dos meios. Assim como algum indivíduo compra pão ou camisa, ou se locomove de ônibus ou de carro, pelo valor de uso desses bens e serviços no seu cotidiano; do mesmo modo, o indivíduo lê jornal ou vê televisão pelo valor de uso dos conteúdos que neles encontra. A empresa mediática tem por objetivo supri-lhe essa utilidade, já entendido que tanto quanto o pão com mortadela lhe fornece calorias para enfrentar o dia a dia, o jornal ou a televisão lhe satisfarão o senso comum, também necessário para enfrentar o dia a dia.
Embora possa parecer contra intuitivo, a produção de audiência não será muito diferente da produção de camisas, automóveis, cervejas ou muitas outras mercadorias. Roupas, por exemplo, antes de serem fabricadas e costuradas, precisam ser desenhadas por estilistas e outros profissionais do ramo. Esses profissionais buscam atender ao que consideram ser os "gostos" ou "desejos" do segmento de mercado que pretendem atingir. Muito provavelmente, terão êxito na medida em que bem conheçam esses "gostos" e "desejos". Mesmo que pesquisas técnicas ajudem a identificar esses "gostos" e "desejos", quase certamente a identidade desses profissionais com o tipo de gosto do público que pretendem atingir será essencial para desenhar roupas que possam "cair no gosto" desse público. Deve ser muito difícil para um artista da moda desenhar alguma roupa que esse mesmo artista seja o primeiro a não gostar, rejeitar ou desprezar. É verdade que os "gostos" variam por sexo, idade, faixas de renda, níveis educacionais, formação familiar, regiões de moradia, culturas e subculturas etc. Do mesmo modo, haverão muitos perfis e experiências profissionais de estilistas e outros artistas da moda para atender a tal diversidade de público, entendida esta como "nichos de mercado".
A produção de audiência é feita por profissionais da Comunicação: jornalistas, publicitários, animadores de auditório, roteiristas de novelas, artistas de TV, cinegrafistas, radialistas etc. Do mesmo modo que os estilistas, eles também precisam estar em sintonia com seus públicos para serem sintonizados por eles (com licença para o trocadilho…). Considerando a divisão social do trabalho, são profissionais da produção de senso comum, assim como médicos são profissionais de saúde; engenheiros, de obras; motoboys, de entregas rápidas. Trocam trabalho por trabalho, conforme explica qualquer manual de Economia Política.
Assim como, ao longo de suas vidas, médicos, engenheiros, advogados ou professores realizam carreiras profissionais nas condições próprias de cada campo de trabalho, o produtor de audiência também tem uma carreira a construir. Assim como naqueles outros campos, o sucesso de carreira deste produtor, jornalista incluído, será medido, ao fim de 20 ou 30 anos, pelo grau de reconhecimento social alcançado; por um certo poder, maior ou menor, de tomar ou influenciar decisões; pela liderança entre os pares e sobre os mais jovens; não esquecendo o patrimônio material amealhado e a perspectiva de uma velhice segura e tranqüila. Evidentemente, esse "capital simbólico", como definiu Pierre Bourdieu, não será igualmente distribuído, tendendo, como qualquer outro capital, à concentração num pequeno conjunto de pessoas, dentro do campo profissional. A maioria, ao final de 20 ou 30 anos, vai se sentir satisfeita (ainda que, eventualmente, um tanto frustrada) se, ao menos, logrou viver quase todo esse período sem grandes sobressaltos materiais, constituiu uma boa família, educou filhos que já lhe dão netos, comprou um pequeno apartamento, conseguiu uma aposentadoria minimamente decente. O senso comum.
Em qualquer campo profissional – e no de Comunicação e Jornalismo não será diferente – os profissionais estabelecem individualmente suas estratégias de acúmulo de "capital simbólico", conforme suas ambições materiais e possibilidades subjetivas. Para chegar no topo é necessário ambição e, convenhamos, nem todos têm a ambição necessária. Mas todos, pelo menos, querem conquistar aquele mínimo material, cultural e subjetivo. Numa sociedade capitalista, a distribuição de "capital simbólico" entre os produtores (médicos, engenheiros ou jornalistas) será resultado da contribuição de cada um(a) para o acúmulo de capital monetário e financeiro das empresas onde trabalham ou do sistema como um todo (conta e investimentos bancários por exemplo, limite de gasto no cartão de crédito etc.). Ora, se o lucro das empresas de comunicação está relacionado à audiência produzida, o produtor ou trabalhador dos meios de comunicação buscará, ao máximo, atender ao "gosto" de seu público, para tal, assim como estilista de moda, não podendo ser "desajustado" relativamente a esse "gosto".
Para as empresas de comunicação, a audiência interessa enquanto consumidora. Se não, que valor teria a publicidade que os meios divulgam? Os consumidores podem se distribuir conforme estratos de renda, perfis culturais ou subculturais, estilos de vida, mas precisam, antes de mais nada, estarem inseridos nos valores comuns, subjetivamente incorporados e naturalizados, da sociedade de consumo (ou "sociedade do espetáculo", diria Guy Debord). Estratos sociais que não consomem além do mínimo básico por falta de renda ou por idiossincrasias culturais não interessam aos meios. Não servem de "matéria-prima" para a produção de audiência. Os meios, em suma, se dirigem para os diferentes estratos de classe média, e recrutam nesses estratos, com seus valores e ambições, os seus jornalistas, publicitários, artistas e demais trabalhadores especialistas em produção de audiência.
É por isto, menos devido a um eventual medo de perder o emprego, muito mais porque compartilham dos mesmos valores médios do seu público, que os profissionais da Comunicação – sejam jornalistas, publicitários, locutores de rádio ou TV, atores de novela, animadores de auditório e todas as suas equipes de produção e apoio – servem tão bem às empresas que os emprega. Produzem e comunicam, com total convicção, exatamente o que o capital quer que produzam e comuniquem. São funcionários do capital, extensão das mentes de seus empregadores ou contratantes. Se não, não lograriam produzir, com tanta competência, a "mercadoria" que precisam produzir para acumular "capital simbólico" e, daí, conquistar as condições de vida e carreira que pretendem conquistar, e o padrão relativamente confortável de vida e consumo que ambicionam e ao qual se habituaram.

     Em qualquer ambiente profissional existem regras não escritas (e não ensinadas na escola) que estabelecerão os padrões de inserção e sucesso de cada indivíduo em seu ambiente. Aprende-se essas regras desde muito jovem, assim que se logra vencer o primeiro obstáculo (e teste) ao sucesso na carreira: a entrada no mercado de trabalho, hoje em dia, quase sempre, na condição de "estagiário". Boa parte do sucesso nos anos seguintes e de conquista de "capital simbólico", daí, promoções, tarefas cada vez mais gratificantes e compensadores, "bons" relacionamentos sociais, dependem da percepção, compreensão, ajuste e até reprodução dessas regras. Pierre Bourdieu chama de "habitus". Nas Comunicações e, particularmente, no jornalismo, não será diferente. E, para chegar no topo ou, pelo menos, alcançar uma posição, digamos, "confortável", recomenda-se observar e se mirar em quem já chegou lá. Os "novos", assim, reproduzem os "velhos". E começam a perceber que estão no "caminho certo" quando começam a ser reconhecidos ou elogiados pelos "velhos", destes também recebendo suas primeiras responsabilidades maiores. Para cada geração que envelhece, surgirá uma nova, reproduzindo seus "habitus", ainda que, obviamente, inovando-os nos aspectos que cada novo tempo possa exigir.
Os "habitus" naturalizam as relações de poder e a competição por "capital simbólico". Senso comum. O que deveria ser visto como aberrante – as escutas do Moro, por exemplo – não serão mais que um fato da realidade, se a produção de audiência busca enfatizar e reproduzir uma certa visão preconceituosa ou discriminatória sobre posturas ou comportamentos, dado um padrão social, que o preconceito, justo porque é preconceito, já estabeleceu previamente ser próprio de algum outro (e indesejável) padrão. É o senso comum do jornalista em consonância com o senso comum do público para o qual se dirige.
No entanto, todo campo profissional – Engenharia, Advocacia, também Jornalismo ou Publicidade – gosta de exibir explícita e formalmente um código de conduta ou de ética que orientaria os princípios básicos da carreira. Talvez o mais famoso seja o "Juramento de Hipócrates", dos médicos. Esses códigos se baseiam em uns tantos princípios metafísicos que as escolas formadores (de Engenharia, Direito ou Jornalismo) descrevem sob o rótulo de "deontologia". No Jornalismo, seu código remonta aos primórdios da imprensa escrita (séculos XVIII e XIX), quando essa atividade era essencialmente liberal. Ser jornalista era desenvolver uma atividade quase individual de formar ou consolidar opiniões, muito mais do que divulgar "notícias", com base no debate político em curso na esfera pública. Produzir um jornal era relativamente barato. Não raro, o jornalista era um polemista e seu jornal, pouco mais do que um panfleto. Nessas condições, firmaram-se os princípios da liberdade de expressão do pensamento e do jornalista como agente da formação de opinião, num ambiente caracterizado pela disputa ou competição entre opiniões divergentes, numa sociedade radicalmente dividida em classes e grupos de classes.
A superação desse jornalismo liberal iluminista pelo jornalismo empresarial, no final do século XIX, agregará ao código, princípios positivistas de conduta a orientar a atividade jornalística. Já não deve ser o indivíduo opinativo, mas narrador "objetivo" e "neutro" dos "fatos". No entanto, por isso mesmo, todos os pressupostos conscientes ou inconscientes – sobretudo os inconscientes – da definição de "fatos" estão excluídos das considerações de "objetividade" e "neutralidade". A sociedade é essa, aliás européia, branca, burguesa, colonialista. Não haverá porque pôr a definição em questão já que para o jornalista e para o seu leitor, os fatos são os fatos. Senso comum.
Assim se definem os fundamentos daquilo que as escolas de Comunicações ou de Jornalismo denominam "agendamento" ou "agenda setting": o conjunto de notícias que "merecem" ser entendidas como "notícias" e a forma de tratá-las, inclusive a distribuição nas páginas, tamanho do corpo do título etc. Regras não escritas mas por todos(as) entendidas e aceitas pois essenciais para o acúmulo de "capital simbólico", definem com a naturalidade do Pão de Açúcar, o que será ou não "notícia". Tudo bem "objetivo" e "neutro". A "notícia" será justamente aquilo que, considerando o segmento de público, ou "nicho de mercado", fermentará a produção de audiência. A "notícia" assim tem que ser aquela que se insere no senso comum da sociedade de consumo, não se põe em dissonância com uma sociedade cujo próprio consumo alimenta o faturamento, via publicidade e marketing, e os lucros do capital mediático. Logo, o grampo de Moro será uma "notícia" menos importante, talvez de interesse de certos setores "críticos" (também consumidores), do que o seu inédito conteúdo, revelando na intimidade uma conversa de presidente com ex-presidente que confirmaria o "juízo" já estabelecido "na sociedade" pelos leitores e espectadores – a audiência. E se jornalistas "famosos" assim definiram, os demais, que esperam um dia serem "famosos" ou já se sentem recompensados pelo convívio e diálogo diário com esses "famosos", sem falar da exibição diária na tela da TV, também pensarão igual. Nenhum escândalo.
No entanto, bem sabemos, a sociedade é o território da luta de classes e outras lutas. Como é ela que, ao fim e ao cabo, legitima os ganhos e perdas de "capital simbólico" em qualquer campo profissional, as disputas por esse capital vão expressar também as disputas maiores que ocorrem na própria sociedade pela repartição da riqueza e distribuição de poder. Nas Comunicações e, em particular, no Jornalismo não são poucos os indivíduos que vão optar por estratégias críticas e posicionamentos "subversivos". Dependendo das condições de cada subcampo das Comunicações, alguns desses indivíduos podem até fazer das atitudes "subversivas" um meio também de acumular vasto "capital simbólico" e consequente capital patrimonial e financeiro. Nas atividades artísticas e esportivas encontraremos muitos exemplos de perfeita inserção no processo de trabalho e produção de audiência associada a discursos críticos, até revoltados. É parte do show. No Jornalismo e, mais ainda, na Publicidade (nesta, por óbvio), é bem mais difícil. Cada vez mais inserido, como segmento complementar, no processo geral de produção mediática do consumo, o Jornalismo atem-se ao "agendamento" que complementa o senso comum da sociedade do consumo, ou os valores "práticos" da classe média, inclusive de seus estratos trabalhadores de menor renda. Aqui, as posturas críticas não podem ser aceitas. E os profissionais que nelas insistem, acabam literalmente expulsos dos bons empregos e demais recompensas oferecidos pelas grandes empresas, refugiando-se em assessorias políticas ou, graças agora à internet, em blogs panfletários que parecem reproduzir, neste início do século XXI, o jornalismo liberal discursivo da esfera pública iluminista. Alguns poucos que já tinham alcançado antes sucesso e prestígio no jornalismo empresarial, ainda conseguem carregar e manter nos meios críticos, alguma condição de sustentação das suas expectativas de vida. Mas seja opinativo e panfletário, seja mais noticioso e profissional, esse nascente segmento da imprensa, até agora, não mostrou força para chegar a se contrapor ao "agendamento". Ao contrário, permanece acorrentado a ele; apenas reage a ele, embora nisso atendendo à demanda de seu particular "nicho" de leitores críticos, sequiosos por alguma oferta alternativa à narrativa de senso comum.
Gramsci já ensinara que a hegemonia é o senso comum da sociedade, embora definido a partir das classes dominantes. Pode acontecer que o próprio movimento da sociedade ponha o senso comum em questão. Sem nenhuma dúvida, a melhoria das condições materiais de vida de boa parte da população mais pobre, sobretudo durante o Governo Lula, introduziu neste amplo setor da população um elemento prático novo que tem-se mostrado até agora resiliente à agenda e narrativa hegemônicas, como atestam as pesquisas eleitorais que seguem mostrando Lula como candidato  quase imbatível em 2018. A experiência recente de vida fez nascer "algo" na cabeça do "povão" que não parece em completa consonância com o que lhe dizem os jornalistas. Abriu-se a possibilidade de a produção de audiência que, naturalmente, é agendada pelo "núcleo duro" da sociedade de consumo (as classes médias altas e média), vir a ser questionada por algum projeto alternativo, capaz de falar ao senso comum do "povão", um tanto enriquecido pelas suas novas experiências práticas. Mas a Esquerda, infelizmente, nunca foi capaz de desenvolver um projeto assim. Exceção (que confirma a regra), o jornal Última Hora, bancado por Getulio Vargas, liderado pelo jornalista Samuel Wainer. Fez o sucesso que fez porque associava as expectativas médias de leitura de boa parte da população (esporte, polícia, espetáculos, tudo tratado como assim espera o senso comum), à alteragenda de suas páginas políticas, nisto contando com muito dinheiro para contratar os melhores profissionais da praça, subtraídos, por Wainer, justamente das "grandes redações" (http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Midia/ultima-Hora-de-como-Vargas-enfrentou-o-monopolio-dos-meios/12/32158). Não impediu o desenlace da história, mas pode ter muito contribuído para a violência final que caracterizou esse desenlace, ao moldar uma audiência contra-hegemônica consoante com a crescente mobilização e organização do movimento popular àquela época. Diante da violência do golpe militar, outros métodos e outra organização também teriam sido necessários...
Getúlio não perdeu tempo. Lula e o PT perderam 13 preciosos anos iludidos com o discurso ideológico da deontologia liberal do Jornalismo e das Comunicações. Aliás, a palavra "deontologia" foi criada por Jeremy Benthan. Precisa dizer mais?...

*Professor Titular da Escola de Comunicação da UFRJ
Acesso em: 26.04.2016

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Mídia Partidarizada - Professor Doutor Homero de Oliveira Costa

Mesa Redonda: Mídia Partidarizada
Data: 05/05/2015 - Horário: 9:30h-11:30h
Prof. Dr. Homero Costa (Doutor em Ciências Sociais-Política pela PUC-SP)
O Professor Homero Costa ofereceu ao público durante esse evento a discussão sobre o monopólio e a partidarização da mídia brasileira. 
Essa foi uma importante e longa contribuição pelo destaque dado à perspectiva tendenciosa dos meios de comunicação nacional, meios dominados por grandes grupos econômicos que constroem uma linguagem pública dominante, sem a pluralidade necessária ao favorecimento da democracia e da diversidade.
Abaixo oferecemos à transcrição de uma pequena parte da fala do Professor Homero Costa, a palestra na íntegra, que durou por volta de 70 minutos, e além ainda contou com questões da plateia está sendo restruturada para breve publicação em formato de livro.

Professor Homero Costa:
Inicialmente quero agradecer ao convite da Sylvana, nossa aluna do doutorado e responsável pela organização dessa mesa com ampla divulgação. O que considero uma excelente iniciativa tanto pela escolha do tema a ser abordado, quanto por contar com a presença dos professores Gilmar Santana, Durval Muniz e Antonino Condorelli que são professores com formações distintas: sociólogo, historiador, jornalista e eu que venho da ciência política.
Como se pode perceber é um titulo não muito modesto, pela própria amplitude do tema, então vou me restringir a alguns pontos que já venho trabalhando a fim de oferecer algumas informações entre a relação sobre a mídia e a política.
Mídia é uma palavra de origem latina derivada de “media”, plural de “médium” que quer dizer meio, portanto quando dizemos “a mídia”, que no Brasil ganhou um “a”,  equivale a dizer meios de comunicação ou o conjunto dos meios que veiculam a informação. Na minha exposição vou me restringir especificamente aos jornais impressos e a televisão. O meu foco será a relação entre mídia e política que, talvez, nos permita pensar sobre alguns aspectos, mais gerais, do tema desse seminário, qual seja: “As tecnologias de informação e comunicação, o poder e a democracia”.               
Nas sociedades democráticas os canais de informação devem ser em princípio plurais e imparciais. Creio haver consenso entre os estudiosos da mídia, mesmo que esses tenham perspectivas teóricas distintas, sobre a centralidade política da mídia nas sociedades contemporâneas, assim como a defesa de um princípio básico no que diz respeito à informação, qual seja, a de que os canais de informação devem ser, em princípio, plurais e imparciais. No entanto, parece haver também consenso de que, mesmo nas sociedades de democracias mais consolidadas, isso não existe. O que há são monopólios de informações, às vezes, de grupos familiares, como no caso do Brasil no qual os meios de comunicação são oligarquizados, situação que coloca em xeque os princípios democráticos do pluralismo.
A meu ver não e possível qualificar como democrática as sociedades nas quais os meios de comunicação são monopólios oligarquizados por grupos familiares, desse modo o que temos são meios que em vez de informar desinformam e deformam. Considerando os monopólios dos meios de comunicação no Brasil que são do domínio de pequenos grupos e considerando a natureza distorcida da informação, alguns estudiosos da mídia tendem a ser pessimistas com o futuro da própria democracia.
Como consequência do monopólio, as mídias são partidarizadas, ou seja, elas possuem um claro e inequívoco posicionamento politico-ideológico e no caso específico do Brasil, isso se expressa de forma mais nítida nas eleições presidenciais. Vou citar alguns livros publicados no Brasil que, pelo consequente monopólio da mídia, tem a preocupação de refletir sobre o futuro da democracia, analisam o posicionamento político e ideológico expresso de forma nítida por meio das partidarizações dos meios de comunicação que se autodenominam por democráticos.
Entre esses estudos destacamos os de “Veja: o indispensável partido neoliberal (l989-2002)” de Carla Luciana Silva; “Mito e discurso político: uma análise a partir da campanha eleitoral de 1994” (2000), “Eleições presidenciais em 2002 no Brasil” (2004) e “A mídia e as eleições de 2006” (2007) de Luís Felipe Miguel, “A ditadura da mídia” de Altamiro Borges (2009), Simulacro e poder: uma análise da mídia de Marilena Chauí (2006) e “A ditadura continuada: fatos, factóides e partidarismo da imprensa na eleição de Dilma Rousseff” (2012) de Jakson Ferreira de Alencar.
 Este último, trata mais especificamente das eleições presidenciais de 2010, e da forma como a campanha eleitoral foi noticiada no jornal Folha de S. Paulo e mostra como houve um posicionamento favorável à candidatura do Geraldo Alckmin, do PSDB.
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Para finalizar gostaria de fazer uma breve referência às redes sociais. Quando elas surgiram e se expandiram, criou-se a ideia que pudessem ser uma alternativa a mídia hegemônica, que por causa da amplitude contribuiriam para a democratização dos meios de comunicação. Essa ideia tem sido questionada, entre outros, pelo professor da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, Ciro Marcondes Filho. No artigo “Macaquinhos Amarelos nas ruas do Brasil”, o estudioso afirma que: “Está havendo uma reviravolta das ciências políticas da comunicação. A voz corrente, até bem pouco, era a de que as redes sociais haviam desbancado os grandes meios, anunciando uma derrocada final de um império que vem desde o século XIX: os donos de jornais e revistas, redes de rádio e televisão, conglomerados comunicacionais de massa estariam com os dias contados. Havia até motivo para grandes comemorações. As redes sociais, instrumento genuinamente popular e democrático, instauravam uma nova democracia, aberta a todos indistintamente, para produzir notícias, fazer veicular o que é silenciado; para dar, enfim, a voz ao povo. Comemorações precipitadas, pois os grandes meios deram a volta por cima. Isso ficou claro na campanha da Revista Veja contra a voz do eleitorado brasileiro, no empenho da Rede Globo em levar as pessoas as ruas no dia 15 de março pelo impeachment , na voz orquestrada e uníssona dos jornais em campanha aberta contra aquela que foi eleita pela soberania das urnas”.
Essa estratégia dos meios de comunicação não é recente, em 1964, houve essa grande orquestração dos meios de comunicação na crítica ao governo de João Goulart, que criou as condições para a intervenção militar, com o apoio dos jornais Folha de S.Paulo, O Estado de S. Paulo e o Globo. Em última análise Ciro Marcondes Filho acentua que [...] “o que estranha é a inesperada adesão popular à ação antidemocrática desses grandes jornais, redes de TV e veículos informativos em geral, em defesa da ‘camisa-amarela’ (...) até novos ‘caras-pintadas’ apareceram, como se a deposição de Collor de Mello, o grande blefe da política brasileira, tivesse a ver com a atuação da presidente Dilma.
 Para o autor houve uma “inesperada adesão das redes sociais à estratégia da mentira, do factoide e da desinformação, somada aos índices de inverdades circulantes pelos meios de comunicação”: Ciro Marcondes Filho acrescenta, ainda, baseado na teoria da indústria cultural, que o imenso poder vindo dos grandes meios impunha-se violentamente às massas, fazendo-as não apenas aderir aos fascismos, mas, também às compras irracionais, aos valores consumistas e à ideologia do mercado, implícita nas mensagens circulantes. Para o autor isso ocorria em todo um movimento de manipulação das massas.
Sendo que, “tudo isso foi relativizado com o tempo”. Passou-se a dizer que havia um exagero nessas teorias, que a opinião pública não era assim tão volúvel. Os estudos culturais começaram a valorizar a leitura crítica das mensagens, a contracultura falava na inversão dos conteúdos. Enfim, de acordo com os novos estudos acreditou-se que a “população não era trouxa”, essa saberia discernir, quando necessário “e não compraria gato por lebre”, nesse aspecto, não se deixaria levar por mensagens ilusórias da mídia. Entretanto, o autor ressalta que no caso brasileiro atual uma parcela da população sim, se deixa levar e compra o gato pelo lebre, ele demonstra que há de fato um índice de aceitação cega das notícias, sobretudo, quando jogada as massas de forma uníssona e orquestrada, a grande classe média “compra” essas versões com muita facilidade, especialmente se não há espaço para vozes contrárias.
 Uma outra variável desse quadro, destacada pelo autor em questão, é sobre a inesperada adesão das redes sociais à estratégia da mentira, do factoide e da desinformação, somada aos índices de inverdade circulantes pelos meios de comunicação. “O que era um espaço de oposição aos grandes meios tornou-se possivelmente, por força dessa mesma ação orquestrada, um braço avançado, a quinta coluna do golpismo no Brasil”. O que prova que mesmo essas redes, onde teoricamente deveriam circular contra-informações, tornam-se hoje, diante de um massacre sistemático de versões tendenciosas (da grande mídia brasileira), elas próprias, caixas de repercussão dos grandes meios. “O movimento de rua de 15 de março de 2015, mostrou que quem manda no Brasil é a TV Globo. Foi uma demonstração de força e de capacidade de mobilização. Foi também uma prova clara de que as pessoas são sim manipuláveis e se deixam levar quando a corrente se fecha e não sobra espaço para as vozes contrárias. Que nesse momento entra em funcionamento o esquema do não ouço, não vejo, não falo dos macaquinhos brasileiros vestidos de amarelo.” Acrescento ao texto do autor que são esses os telespectadores e leitores midiotizados.



A versão completa da palestra do Professor será publicada em livro dedicado a problematização dos meios de comunicação e o contexto democrático. No próximo post colocaremos em destaque alguns trechos da palestra do Professor Antonino Condorelli.
Um abraço aos leitores e até breve!

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Os Meios de Comunicação e a Democracia



I CICLO DE DEBATES SOBRE OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO E A DEMOCRACIA
Acontecerá durante a edição comemorativa do vigésimo Seminário de Pesquisa do CCSA: Construindo saberes para a promoção do desenvolvimento e da democracia


Período: 05 e 07 de maio de 2015


                                                          
COORDENADOR DOS DEBATES: Sylvana Kelly Marques da Silva
Doutoranda e Bolsista Capes pelo Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais (PPGCS) da UFRN. Colaboradora da Base de Pesquisa Festas Religiosas, Turismo e Políticas Públicas UFRN/PPGCS e do Núcleo de Estudos Urbanos da Universidade Caxias do Sul. Atualmente é Professora Formadora na disciplina de Novas Tecnologias da Informação e Comunicação no Mestrado Profissional em Educação e Multidisciplinaridade/IESN. Tem estudos nos temas de história; configurações e identidades espaciais; turismo; fotografias; paisagem; competitividade, gestão e estratégia de marketing e; desenvolvimento regional/local.

Departamento:
Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais – PPGCS/UFRN

Abrirá o evento localizando as principais transformações temporais e espaciais ocorridas com o advento das tecnologias a partir do evento da modernidade, destacando o contexto histórico e teórico em que se desdobrarão as palestras dos professores ministrantes.

E-mail: sylvanakelly@gmail.com
  

 1ºDEBATE: 
AS TECNOLOGIAS DA INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO, O PODER E A DEMOCRACIA
DATA: 05 de maio, terça-feira, de 09 e 30 ás 11 e 30. 
LOCAL: AUDITÓRIO DO NÚCLEO DE PRÁTICAS JURÍDICAS – CCSA/UFRN

DEBATEDORES:

HOMERO DE OLIVEIRA COSTA: UFRN /TITULAR
Doutor em Ciências Sociais/Política pela PUC-SP. Professor Titular do Departamento de Ciências Sociais e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFRN. Pesquisador do CNPQ com pesquisas no campo de partidos políticos, sistemas eleitorais, reforma política e financiamento de campanhas. Coordenador do Grupo de Pesquisa Teoria Política, Democracia e Estado.

Tema - A Mídia Partidarizada:
Abordará de modo crítico a relação entre as mídias, o poder, a política e a democracia, além de pontuar aspectos relevantes das principais pesquisas que tem sido desenvolvida sobre a temática no campo da comunicação e das ciências sociais.


ANTONINO CONDORELLI: UFRN/ PROFESSOR-DECOM
Doutorando em Ciências Sociais pela UFRN. Graduado em Ciências da Comunicação pela Università degli Studi di Siena, Itália. Professor substituto do Departamento de Comunicação Social da UFRN. Implantou e coordenou o Curso de Especialização Estratégias de Comunicação em Mídias Sociais da Universidade Estácio de Sá/Ponta Negra e foi coordenador do Curso de Graduação em Publicidade e Propaganda da mesma instituição. Têm estudos nas áreas de comunicação digital e cibercultura, biopolítica e produção de subjetividades, diálogo entre saberes científicos e não científicos, semiótica e epistemologia da complexidade. Produtor cultural e coordenador dos projetos Diálogos Criativos.

Tema - Micropolíticas Alternativas nas Redes Digitais
Destacará a configuração das interações digitais como um campo político com possibilidade de promoção das sociabilidades coletivas e subjetividades, para além da lógica dominante, no acesso digital e seus recursos.
 
 2ºDEBATE:
MÍDIAS, PODER E SOCIEDADE: PRODUÇÕES “IDEOLÓGICAS”?
DATA: 07 de maio, quinta-feira, de 15 e 30 ás 17 e 30.
LOCAL: AUDITÓRIO DO NEPSA - CCSA/UFRN  SETOR V - (GOIABINHA)

Dr. DURVAL MUNIZ DE ALBUQUERQUE JÚNIOR: UFRN-TITULAR
Doutor em História pela UNICAMP - Universidade Estadual de Campinas. Possui graduação em Licenciatura Plena em História pela Universidade Estadual da Paraíba e mestrado em História pela Universidade Estadual de Campinas. Atualmente é colaborador da Universidade Federal de Pernambuco, da Estadual de Campinas e professor titular da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

Tema: As mídias familiares e oligárquicas no Brasil: O que querem e o que podem?
Dialogará sobre o jornalismo que se faz hoje no Brasil, chamando a atenção para os aspectos culturais, o poder e as representações midiáticas. Buscará principalmente, pensar as influências de determinados setores da mídia em suas dimensões políticas e simbólicas, articulando noções como as de poder, representação e discursos na produção de fronteiras que atende à visão colonizada de um grupo que despreza a pluralidade do seu próprio país, em meio a idiossincrasias individuais, estimulando mensagens que investem no confronto e na violência, ao invés se propor a uma visão tolerante das diferenças.

Dr. GILMAR SANTANA:UFRN - ADJUNTO
Doutor em Sociologia pela USP. Professor Adjunto do Departamento de Ciências Sociais e do Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais da UFRN (Campus Natal), editor-chefe da Revista CRONOS (PPGCS/UFRN), coordenador do curso de especialização em Sociologia (EaD - SEDIS/RN), coordenador do Cine-Tirésias e pesquisador do CNPQ. Desenvolve atividades de ensino, pesquisa e extensão que articulam de maneira interdisciplinar as áreas da Cultura, Imagem, Cinema, Documentário, Teatro do Oprimido, Memória, Cotidiano e Movimentos Populares de Cultura.

Tema - Mídia e Ideologia:
Uma análise crítica da mídia. Argumentará sobre como a mídia e a ideologia se manifestam na cultura produzida atualmente, com vistas a iluminar a dinâmica social da realidade aonde estas se produzem. As mídias enquanto produção cultural, majoritariamente, carregam em si categorias e elementos ideológicos, mesmo mostrando-se como isentas de interesses. Portadoras de valores próprios oriundos de suas trajetórias e propostas para agir na sociedade, devem ser analisadas internamente, pois ao compreendê-las pode-se evidenciar, na crítica resultante, as possibilidades de diálogo com outras teorias e vislumbrá-las como ferramentas pertinentes para a prática acadêmica e social atual.