sexta-feira, 22 de abril de 2016

Mídia Partidarizada - Professor Doutor Homero de Oliveira Costa

Mesa Redonda: Mídia Partidarizada
Data: 05/05/2015 - Horário: 9:30h-11:30h
Prof. Dr. Homero Costa (Doutor em Ciências Sociais-Política pela PUC-SP)
O Professor Homero Costa ofereceu ao público durante esse evento a discussão sobre o monopólio e a partidarização da mídia brasileira. 
Essa foi uma importante e longa contribuição pelo destaque dado à perspectiva tendenciosa dos meios de comunicação nacional, meios dominados por grandes grupos econômicos que constroem uma linguagem pública dominante, sem a pluralidade necessária ao favorecimento da democracia e da diversidade.
Abaixo oferecemos à transcrição de uma pequena parte da fala do Professor Homero Costa, a palestra na íntegra, que durou por volta de 70 minutos, e além ainda contou com questões da plateia está sendo restruturada para breve publicação em formato de livro.

Professor Homero Costa:
Inicialmente quero agradecer ao convite da Sylvana, nossa aluna do doutorado e responsável pela organização dessa mesa com ampla divulgação. O que considero uma excelente iniciativa tanto pela escolha do tema a ser abordado, quanto por contar com a presença dos professores Gilmar Santana, Durval Muniz e Antonino Condorelli que são professores com formações distintas: sociólogo, historiador, jornalista e eu que venho da ciência política.
Como se pode perceber é um titulo não muito modesto, pela própria amplitude do tema, então vou me restringir a alguns pontos que já venho trabalhando a fim de oferecer algumas informações entre a relação sobre a mídia e a política.
Mídia é uma palavra de origem latina derivada de “media”, plural de “médium” que quer dizer meio, portanto quando dizemos “a mídia”, que no Brasil ganhou um “a”,  equivale a dizer meios de comunicação ou o conjunto dos meios que veiculam a informação. Na minha exposição vou me restringir especificamente aos jornais impressos e a televisão. O meu foco será a relação entre mídia e política que, talvez, nos permita pensar sobre alguns aspectos, mais gerais, do tema desse seminário, qual seja: “As tecnologias de informação e comunicação, o poder e a democracia”.               
Nas sociedades democráticas os canais de informação devem ser em princípio plurais e imparciais. Creio haver consenso entre os estudiosos da mídia, mesmo que esses tenham perspectivas teóricas distintas, sobre a centralidade política da mídia nas sociedades contemporâneas, assim como a defesa de um princípio básico no que diz respeito à informação, qual seja, a de que os canais de informação devem ser, em princípio, plurais e imparciais. No entanto, parece haver também consenso de que, mesmo nas sociedades de democracias mais consolidadas, isso não existe. O que há são monopólios de informações, às vezes, de grupos familiares, como no caso do Brasil no qual os meios de comunicação são oligarquizados, situação que coloca em xeque os princípios democráticos do pluralismo.
A meu ver não e possível qualificar como democrática as sociedades nas quais os meios de comunicação são monopólios oligarquizados por grupos familiares, desse modo o que temos são meios que em vez de informar desinformam e deformam. Considerando os monopólios dos meios de comunicação no Brasil que são do domínio de pequenos grupos e considerando a natureza distorcida da informação, alguns estudiosos da mídia tendem a ser pessimistas com o futuro da própria democracia.
Como consequência do monopólio, as mídias são partidarizadas, ou seja, elas possuem um claro e inequívoco posicionamento politico-ideológico e no caso específico do Brasil, isso se expressa de forma mais nítida nas eleições presidenciais. Vou citar alguns livros publicados no Brasil que, pelo consequente monopólio da mídia, tem a preocupação de refletir sobre o futuro da democracia, analisam o posicionamento político e ideológico expresso de forma nítida por meio das partidarizações dos meios de comunicação que se autodenominam por democráticos.
Entre esses estudos destacamos os de “Veja: o indispensável partido neoliberal (l989-2002)” de Carla Luciana Silva; “Mito e discurso político: uma análise a partir da campanha eleitoral de 1994” (2000), “Eleições presidenciais em 2002 no Brasil” (2004) e “A mídia e as eleições de 2006” (2007) de Luís Felipe Miguel, “A ditadura da mídia” de Altamiro Borges (2009), Simulacro e poder: uma análise da mídia de Marilena Chauí (2006) e “A ditadura continuada: fatos, factóides e partidarismo da imprensa na eleição de Dilma Rousseff” (2012) de Jakson Ferreira de Alencar.
 Este último, trata mais especificamente das eleições presidenciais de 2010, e da forma como a campanha eleitoral foi noticiada no jornal Folha de S. Paulo e mostra como houve um posicionamento favorável à candidatura do Geraldo Alckmin, do PSDB.
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Para finalizar gostaria de fazer uma breve referência às redes sociais. Quando elas surgiram e se expandiram, criou-se a ideia que pudessem ser uma alternativa a mídia hegemônica, que por causa da amplitude contribuiriam para a democratização dos meios de comunicação. Essa ideia tem sido questionada, entre outros, pelo professor da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, Ciro Marcondes Filho. No artigo “Macaquinhos Amarelos nas ruas do Brasil”, o estudioso afirma que: “Está havendo uma reviravolta das ciências políticas da comunicação. A voz corrente, até bem pouco, era a de que as redes sociais haviam desbancado os grandes meios, anunciando uma derrocada final de um império que vem desde o século XIX: os donos de jornais e revistas, redes de rádio e televisão, conglomerados comunicacionais de massa estariam com os dias contados. Havia até motivo para grandes comemorações. As redes sociais, instrumento genuinamente popular e democrático, instauravam uma nova democracia, aberta a todos indistintamente, para produzir notícias, fazer veicular o que é silenciado; para dar, enfim, a voz ao povo. Comemorações precipitadas, pois os grandes meios deram a volta por cima. Isso ficou claro na campanha da Revista Veja contra a voz do eleitorado brasileiro, no empenho da Rede Globo em levar as pessoas as ruas no dia 15 de março pelo impeachment , na voz orquestrada e uníssona dos jornais em campanha aberta contra aquela que foi eleita pela soberania das urnas”.
Essa estratégia dos meios de comunicação não é recente, em 1964, houve essa grande orquestração dos meios de comunicação na crítica ao governo de João Goulart, que criou as condições para a intervenção militar, com o apoio dos jornais Folha de S.Paulo, O Estado de S. Paulo e o Globo. Em última análise Ciro Marcondes Filho acentua que [...] “o que estranha é a inesperada adesão popular à ação antidemocrática desses grandes jornais, redes de TV e veículos informativos em geral, em defesa da ‘camisa-amarela’ (...) até novos ‘caras-pintadas’ apareceram, como se a deposição de Collor de Mello, o grande blefe da política brasileira, tivesse a ver com a atuação da presidente Dilma.
 Para o autor houve uma “inesperada adesão das redes sociais à estratégia da mentira, do factoide e da desinformação, somada aos índices de inverdades circulantes pelos meios de comunicação”: Ciro Marcondes Filho acrescenta, ainda, baseado na teoria da indústria cultural, que o imenso poder vindo dos grandes meios impunha-se violentamente às massas, fazendo-as não apenas aderir aos fascismos, mas, também às compras irracionais, aos valores consumistas e à ideologia do mercado, implícita nas mensagens circulantes. Para o autor isso ocorria em todo um movimento de manipulação das massas.
Sendo que, “tudo isso foi relativizado com o tempo”. Passou-se a dizer que havia um exagero nessas teorias, que a opinião pública não era assim tão volúvel. Os estudos culturais começaram a valorizar a leitura crítica das mensagens, a contracultura falava na inversão dos conteúdos. Enfim, de acordo com os novos estudos acreditou-se que a “população não era trouxa”, essa saberia discernir, quando necessário “e não compraria gato por lebre”, nesse aspecto, não se deixaria levar por mensagens ilusórias da mídia. Entretanto, o autor ressalta que no caso brasileiro atual uma parcela da população sim, se deixa levar e compra o gato pelo lebre, ele demonstra que há de fato um índice de aceitação cega das notícias, sobretudo, quando jogada as massas de forma uníssona e orquestrada, a grande classe média “compra” essas versões com muita facilidade, especialmente se não há espaço para vozes contrárias.
 Uma outra variável desse quadro, destacada pelo autor em questão, é sobre a inesperada adesão das redes sociais à estratégia da mentira, do factoide e da desinformação, somada aos índices de inverdade circulantes pelos meios de comunicação. “O que era um espaço de oposição aos grandes meios tornou-se possivelmente, por força dessa mesma ação orquestrada, um braço avançado, a quinta coluna do golpismo no Brasil”. O que prova que mesmo essas redes, onde teoricamente deveriam circular contra-informações, tornam-se hoje, diante de um massacre sistemático de versões tendenciosas (da grande mídia brasileira), elas próprias, caixas de repercussão dos grandes meios. “O movimento de rua de 15 de março de 2015, mostrou que quem manda no Brasil é a TV Globo. Foi uma demonstração de força e de capacidade de mobilização. Foi também uma prova clara de que as pessoas são sim manipuláveis e se deixam levar quando a corrente se fecha e não sobra espaço para as vozes contrárias. Que nesse momento entra em funcionamento o esquema do não ouço, não vejo, não falo dos macaquinhos brasileiros vestidos de amarelo.” Acrescento ao texto do autor que são esses os telespectadores e leitores midiotizados.



A versão completa da palestra do Professor será publicada em livro dedicado a problematização dos meios de comunicação e o contexto democrático. No próximo post colocaremos em destaque alguns trechos da palestra do Professor Antonino Condorelli.
Um abraço aos leitores e até breve!

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